As frequentes brincadeirinhas entre colegas de escola que, em muitos casos, se transformam em perseguição e maus-tratos, têm um alvo preferido: as crianças acima do peso. Obesos ...
As frequentes brincadeirinhas entre colegas de escola que, em muitos casos, se transformam em perseguição e maus-tratos, têm um alvo preferido: as crianças acima do peso. Obesos com idade entre 8 e 11 anos têm 63% de chances a mais de serem vítimas de bullying, seja qual for sua raça, condição econômica e desempenho escolar.
A conclusão é de um estudo da Universidade de Michigan, nos Estados Unidos, realizado com 821 crianças. E não é de hoje que os quilinhos a mais são motivos de deboche entre os pequenos. A pesquisa aponta, inclusive, que 45% das mães entrevistadas tinham consciência do problema que as crianças enfrentavam.
“Ser chamado por apelidos nada amigáveis como ‘rolha de poço’ e ‘baleia’ não é fácil. Algumas crianças até não se importam com isso, mas a reação depende da autoestima de cada um. Os pais devem estar sempre atentos às mudanças de comportamento e ouvir o que os filhos têm a dizer”, alerta a psicopedagoga clínica e terapeuta familiar Penha Peterli.
Para ela, crianças que praticam bullying apresentam falhas com relação aos princípios éticos e morais repassados pelo círculo social com o qual convivem. “Em grupos, elas se sentem mais fortes e capazes de afetar negativamente outras pessoas, que consideram menos privilegiadas”, explica.
Para a pediatra e coordenadora do Departamento de Obesidade Infantil da Associação Brasileira para o Estudo da Obesidade e da Síndrome Metabólica (Abeso), Lilian Gonçalves Zaboto, é preciso tratar a obesidade antes que ela se torne um problema para a criança. “Os pais devem cuidar, antes de tudo, da saúde dos seus filhos, antes que ela se torne um problema em outros âmbitos. Em muitos casos, as crianças só conseguem superar a agressão com acompanhamento médico”, avisa.
Após comentários, menino perde 25kg em 5 meses
O que pode parecer brincadeira comum entre crianças acabou gerando uma doença grave no garoto britânico Taylor Kerkham, de 11 anos. Ele luta contra a anorexia e viu seu peso cair de pouco mais de 50 quilos para cerca de 25 quilos em meses. Segundo o menino, tudo começou por causa de “alguns comentários” de colegas, que disseram que ele era “cheinho”. Esses comentários levaram-no a passar cinco meses internado num hospital de Manchester no ano passado, enquanto sua família e os médicos tentavam persuadi-lo a comer. Só com a ajuda de uma nutricionista e o apoio de sua família, Taylor conseguiu recuperar o peso normal para sua idade.
Bullying pode levar à depressão infantil
As consequências do bullying para uma criança que já sofre com outro problema, como o excesso de peso, podem ser desastrosas no futuro, alertam os especialistas. “Tudo pode começar com o isolamento. Porém, quando a criança passa a pedir para não ir à escola ou a trocar de escola, é preciso redobrar a atenção. Se esse medo não for tratado, ela pode desenvolver problemas de relacionamento no futuro e ter, inclusive, depressão infantil”, diz a psicopedagoga Penha Peterli.
A pressão social sofrida desde cedo para que as crianças estejam dentro dos padrões estéticos acabam agindo contra a autoestima, diz a pediatra Lilian Gonçalves Zaboto.
“Não são raros os casos de meninos e meninas que chegam ao consultório porque precisam superar problemas maiores que os da própria saúde. É preciso que os pais mudem o estilo de vida dessas crianças. Amar é também saber dizer não a muitas coisas, como aos excessos e aos alimentos não-saudáveis”, defende a pediatra.
10% das crianças estão acima do peso
A obesidade sempre foi o alvo preferido de crianças na hora de debochar dos colegas na escola. Hoje, porém, o problema é ainda mais frequente, devido ao aumento da população infantil com excesso de peso no país. O IBGE identificou, em 2009, que cerca de 10% de crianças e adolescentes brasileiros tinham problema com sobrepeso, e 7,3% sofriam com a obesidade.
De acordo com a pediatra e coordenadora do Departamento de Obesidade Infantil da Associação Brasileira para o Estudo da Obesidade e da Síndrome Metabólica (Abeso), Lilian Gonçalves Zaboto, existem pesquisas que apontam para uma perspectiva ainda maior: de que cerca de 40% das crianças e adolescentes brasileiros estejam acima do peso ideal.
O que não muda, porém, é a pressão que sofre esse grupo. “Assim como o número de crianças com sobrepeso, aumentou também a exigência do corpo perfeito”, explica.
Autoestima à prova
Saiba se seu filho é vítima e como agir
Como prevenir
Autoestima. É importante trabalhar a autoestima da criança desde pequena. Uma dica é nunca observar os “defeitos” dos filhos de forma negativa, mas mostrar com naturalidade que as diferenças existem e que não devem ser encaradas como problema
Confiança. Estabeleça uma relação de confiança e diálogo com a criança para que ela se sinta sempre à vontade para contar aquilo que lhe fizer mal
Como perceber
Perda de interesse pela escola
Vontade de trocar de escola
Sentimento de fracasso e de não merecimento
Isolamento
Timidez excessiva
Reações estranhas a situações normais, como chorar ao ter que escolher uma roupa para vestir
Em muitos casos, as agressões são interiorizadas pela criança. Ela acaba achando que é aquilo que os outros dizem que ela é
Como ajudar
Diálogo. O ideal é que ela se sinta confiante para contar sem ser delatada pelos pais a outras pessoas
Escola. Converse com professores e com a direção da escola. Peça para que a escola identifique e oriente os pais dos alunos envolvidos ou não na agressão
Valores. É importante que os pais, em primeiro lugar, aceitem a criança como
ela é para ajudá-la a aceitar o próprio corpo
Texto retirado da GAZETA ON LINE